domingo, janeiro 08, 2012

Intimidade


Observo-te: deitada no leito do deleite, de mornos lençóis desfeitos.
Revoltos da luta que os corpos encetaram.
Agora leve pluma em sonhos de algodão doce envolta.
Há pouco selvagem faminta devorando a presa.
Os lábios que beijei, mordisquei, penetrei, desenhei com a língua.
Agora mudos das palavras belas e dos gemidos de cio.
Observo-te: as pálpebras cerradas planando em nuvens de algodão.
Há pouco abertas de olhos esmeralda sôfregos de desejo.
Os cabelos em desalinho escorrendo pelo pescoço em ondas vertiginosas.
Observo-te: os seios cheios que despi, toquei, amassei, suguei.
Agora colinas orgulhosas ao vento desfraldados.
Sinto ainda o arrepio nas costas de quando te senti ter o primeiro prazer.
Observo-te: o ventre marcado pelo rasto da saliva de quando nele desci.
Afogando-me na seiva de prazer do teu sexo entre paredes molhadas e mornas.
Rocei, lambi, ouvi, entrei.
Pleno de ardor qual duro poste altivo em vaivém constante ao sabor da tempestade.
Até aos gritos de prazer saídos desses lábios que observo agora mudos.
Deixei-te em repouso e saí.

segunda-feira, agosto 10, 2009

Criação


Letras escritas, sussurradas entre linhas alinhavadas a fio.
Cheias, gordas, esguias, lânguidas.
Meio que esconde o fim;
Reflexos do desejo calado.
Teia ordenada que procura sentido no tecido.
Presas, esperam a quebra do sortilégio,
o momento da transformação,
quando soltas das folhas se convertem às formas.
Carne, sangue, vida, corpos no linho em desalinho.
Respiram agora. Atrevimento, consagração, orgasmos.
Deixa-as riscar no teu corpo o livro que para ti teci.

sexta-feira, março 13, 2009

Física


Sei de ti o aperto dinamométrico preciso que faz a chave de fendas na fenda penetrar;
O veio lubrificado com óleos perfumados recebe o êmbolo em movimentos alternados;
Mecânica avançada esta que gere a rotação dos corpos físicos;
Peças de encaixe síncrono como rodas dentadas de engrenagem desenfreada em giro constante;
Sentidas horas de sôfrego arfar entre diáfano véu rasgado;
O erecto aríete a roldanas içado, balança entre vigorosas vigas, agora enfraquecidas pelo embate;
Define-se o diâmetro, dá-se a explosão;
Reacção em cadeia que liberta a represa;
Inundadas, afundam-se as peças trabalhadas a martelo e cinzel;
Energizados, os mecanismos reparam-se e o ciclo retoma-se

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Danço


Descoberta no invisível, envolta em véu de electrões fiado, apareceste modesta e bela, esculpida a cinzel em mãos de artífice sagaz.
Menina ardente entre livros guardada. De coração deserto fugido a beijos magoados, no pranto dos dias que teimavam em te esconder de mim.
Quebraram-se barreiras, o mundo transformou-se em partículas de leitura fácil, branco no preto. Volumes de informação que descodificamos, antes da palavra saída, partilhando o mesmo código que nos atrai.
Encontrei-te nua e serena a guardar o domínio perene, agora aberto à conquista.
Seios entumecidos perante a alva que se agiganta, em mesura afável ao toque tímido.
Por instantes perco a noção dos sentidos. Embalado por ténue cinética,
Danço contigo as palavras que sonhas da minha boca.

sábado, janeiro 24, 2009

Quando?


Sinto falta das tuas marés, do teu chegar à praia mansinho. Ânsia de sentir o rasgar da onda que requebra em branco leito.

Quando chegas? Quando me vais enlevar no remoinho dos teus cabelos, ébrio do sal que emana de ti?
Encho os dias com memórias; do teu olhar castanho e atrevido que desvenda pensamentos; do teu toque mansinho; da voz que é doce; dos beijos por dar. Reconheço de cor o teu cheiro, perco-me a enlaçar-te de olhos fechados e sinto-te em água murmurando-me ao ouvido. Bebo de ti, sôfrego de trazer em mim o rio que te dá vida.
Egoísta. Sim, eu sei. Mas só pelo medo de te perder, de não conquistar o coração que me guia os passos.

Quando voltas? Quando te posso esperar naquela porta, na ombreira metálica e fria que corta a fronteira entre nós?
Pudesse eu cruzar os céus como a luz e no instante seguinte estava ao teu lado, do teu lado, tendo-te de lado, em todo o lado. Até ao fim do mundo que também é o princípio, a luz do teu brilho conduzir-me-á. Não tenho medo do infinito, viajo pela luz que me atrai.

Quando te vejo? Quando volto a dar-te a mão, sentindo o frio que te perpassa o corpo sem tocar o sangue?
Fugidia como o reflexo incorpóreo na janela da máquina infernal que te leva para longe de mim. Entre linhas paralelas aguardo o milionésimo que cruze as dimensões de tempo e espaço e nos faça chocar. Implodir em ti torrentes do plasma primitivo.

Sim.

Quando te tenho?

quinta-feira, novembro 24, 2005

Do teu Beijo










Arde em mim a tua língua de fogo
Um fogo imenso que me consome a alma
Entorna da boca e derrama-se em nós
Um ténue invólucro que nos envolve
Dissolve-se no ar e grava os nossos nomes no éter
Fervilha a lava nos corpos tépidos
A força tesa do sexo, o toque no teu ventre aveludado
Envolto no teu abraço apertado
Já não quero asas, nem sonhos.
Queria só parar o tempo agora...

Procuro no fundo dos bolsos o calor guardado das tuas mãos
Tento afastar este vazio que ficou depois de ti
Do teu Beijo

quarta-feira, novembro 16, 2005

Vou beijar-te




Vou beijar-te a boca
morder-te os lábios
brincar com a tua língua na minha.
Afagar-te o cabelo em desalinho
arrepiar-te o corpo manso
Seguir o sulco das tuas encostas
ao encontro dos picos estrelados

Vou deixar o meu rasto nas estradas do teu corpo
Perder-me no teu vale suado
trabalhado a fio e orvalho

Rasgar-te a fina pérola com o cristal agudo
encorajado pelos teus vagidos de hiena
Fundir-me no teu fogo carmim que me queima e engole

Encostar o meu peito no teu
até os corações brancos se sincronizarem
e as mãos entrelaçadas suarem.
Vir-me no teu arfar
estilhaçado o cristal em mil pedaços

Vou forjar o teu abraço eterno
guardar o teu cheiro na minha pele.

sábado, novembro 12, 2005

se eu tão só pudesse





se eu tão só pudesse voar como ave decidida ia procurar-te aí onde dormes esquecida

descoberta nesse ninho feito cama de ciúmes que te tem todas as noites presa num abraço sem fim

longe de mim e do mundo. ausente entre a lassidão e o abandono

se eu tão só pudesse espreitar-te o corpo nú que me desassossega a alma

passear o olhar pelo contorno do teu corpo enroscado, urdido a lascívia em cada curva que se abre dos seios ao encontro do núcleo que me faz perder os sentidos ao atingir o infinito

sentir o teu cheiro preso nas almofadas, na cama, nos livros que estiveste a ler ainda quentes das tuas mãos.

se eu pudesse esconder as lágrimas que teimam em turvar-me a vista por tudo te querer roubar-me e descem à boca doces por baixo do amargo da língua.

então talvez eu conseguisse dizer que te amo tanto

e se eu dissesse que te amo tanto

sexta-feira, novembro 04, 2005

Nina




Não estive contigo nem uma vez. Mas conheço-te. Ainda que cada pessoa seja um mundo que desconhecemos e se procura conquistar e descobrir à medida dos nossos desejos.
Conheço as palavras que escreveste nos diálogos que tivemos desde que me apareceste e que me acompanham os dias nas horas vazias de tudo. Disseste que a tua vida é um mapa que desenhas dia a dia. Traçado perto do mar que te beija a cara com sal quando lhe vigias as dunas de areia de cabelo ao vento.
Conheço o significado do bater acelerado do meu coração quando as quatro letras do teu nome se abrem numa janela de fundo azul iluminada pelo teu retrato. O corpo moreno estendido ao Sol, lânguido de vontade, desprendida de pensamentos. Imagino o desenho das tuas curvas na areia e pergunto-me se te dás conta do efeito que provocas ou se é tão inconsciente como natural.
É tão bom não saber nada. Não existe, não preocupa, não se sente. Mas é tarde. Agarraste-me por dentro, lá onde a vida se agarra e a dor é mais sofrida que o prazer. Agora só espero que a tua janela se abra, que estejas lá à minha espera, que me fales do que és, do que te importa como quando me elogiaste a boca. A mesma que te deseja. Desejo nem sei bem de quê. Talvez de te beijar a pele no limite que os lábios alcançam até desaparecer em ti.
Que estranho é conhecer. Talvez nem existas ou sejas outra pessoa. Estarei a imaginar-te? O engano é doce como o mel. Estou viciado. Não tenho mais certezas.
Vou esperar mais logo pela tua janela.
Penetraste em mim como um raio, veloz como a luz e ardente como a paixão.

terça-feira, maio 03, 2005

Maré




um banho de espuma, um saxofone baixinho, uma luz que se derrama,...

risos nervosos, corpos ansiosos, carícias ousadas, roupas atiradas,...

murmúrios sentidos, lençóis perdidos,...

a pele suada,... o odor a mar,...

pernas descoladas, bocas coladas, ventres pegados,...

sons de prazer,...

unhas cravadas, ritmos cadenciados, sítios explorados,...

mãos nos cabelos, cabelos nas bocas, bocas molhadas, salivas trocadas,...

a maré a subir, o mar a entrar, ondas a rebentar, sal no ar, difícil respirar,...

cabeças pendentes, gemidos presentes,....

reacções ausentes

D. J.

segunda-feira, maio 02, 2005

Memória




Escrevo para não esquecer. Para não perder os momentos que a memória adiciona.
Passagens do tempo que consertam a felicidade.
Os arrepios no corpo quando estavas presente.
Os calores das mãos suadas tocando-se curiosas.
Os avanços do mar sobre a praia deserta.
Os frémitos dos corpos satisfeitos.
Os cansaços das batalhas que fizeram a história repetidas até à exaustão.
Se tão só te lembrasses....
Encontraríamos de volta a mansidão dos olhares que trocámos.

D. J.

sexta-feira, abril 29, 2005

Mulher


Era, é e será.
Real na carne, reinventada em cada um.

D. J.