Quando?

Sinto falta das tuas marés, do teu chegar à praia mansinho. Ânsia de sentir o rasgar da onda que requebra em branco leito.
Quando chegas? Quando me vais enlevar no remoinho dos teus cabelos, ébrio do sal que emana de ti?
Encho os dias com memórias; do teu olhar castanho e atrevido que desvenda pensamentos; do teu toque mansinho; da voz que é doce; dos beijos por dar. Reconheço de cor o teu cheiro, perco-me a enlaçar-te de olhos fechados e sinto-te em água murmurando-me ao ouvido. Bebo de ti, sôfrego de trazer em mim o rio que te dá vida.
Egoísta. Sim, eu sei. Mas só pelo medo de te perder, de não conquistar o coração que me guia os passos.
Quando voltas? Quando te posso esperar naquela porta, na ombreira metálica e fria que corta a fronteira entre nós?
Pudesse eu cruzar os céus como a luz e no instante seguinte estava ao teu lado, do teu lado, tendo-te de lado, em todo o lado. Até ao fim do mundo que também é o princípio, a luz do teu brilho conduzir-me-á. Não tenho medo do infinito, viajo pela luz que me atrai.
Quando te vejo? Quando volto a dar-te a mão, sentindo o frio que te perpassa o corpo sem tocar o sangue?
Fugidia como o reflexo incorpóreo na janela da máquina infernal que te leva para longe de mim. Entre linhas paralelas aguardo o milionésimo que cruze as dimensões de tempo e espaço e nos faça chocar. Implodir em ti torrentes do plasma primitivo.
Sim.
Quando te tenho?

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